quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Olhos rasos

 

Era primavera. Estava quente, abafado, mas o vento tinha um toque frio, sereno. Um dia corrido. Estava matando o tempo. Um encontro inesperado. Você tem um cheiro curioso, mistura de baunilha com tabaco. Estava ansiosa, nervosa e você tranquilo, leve. Conversamos. Eu tinha horário e você o dia livre. Sua roupa estava amarrotada e seu cabelo desalinhado. Sorri sem perceber.

Voltei ainda incerta e você me puxou pela mão. Acompanhei seus passos lentos, corremos. Gritos, sorrisos e silêncio. Sua língua é tenra, agressora. Descobri lugares, coisas e pessoas. Seu joelho esquerdo é mais bonito que o direito. Tem marcas de nascença. Choveu enquanto fazia sol e você me esquentou. Decorei os redemoinhos de  seus cabelos e esqueci seu nome.

Eu queria mergulhar nos seus olhos, mas eram rasos. Os olhos mais rasos que já conheci. Seu toque era áspero e delicado, uma eterna dualidade que compõe sua essência. Eu queria permanecer, mas tinha obrigações com minha sanidade. Você sorria e cantarolava. Sua orelha era pequena e seus lábios frios. Tive que ficar na ponta dos pés para alcançar sua nuca. Essa, talvez, tenha sido a menor das nossas diferenças. Creio que seja por meio das incompatibilidades que você me invadiu ou talvez eu só o tenha deixado entrar por causa dos olhos rasos.

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